Cala a bola! Só fala comigo depois que a gente chegar!
Um sábado quente, com corridas não lá muito empolgantes.
Visualizo que há uma enorme quantidade de carros na Vila
Madalena. Resolvo partir para direções menos convencionais. Vou tentar fugir da
concorrência.
Parto para a zona norte em um caminho pouco habitual. Vou
pela Lapa. Não conheço quase nada e ao menos vou me familiarizando com a região.
Mas o primeiro pedido só aparece perto da Barra Funda.
O primeiro casal demorou dez minutos para aparecer no ponto
desejado. Entrou no carro falando o bom e velho “boa tarde” após serem provocados
por mim. Não houve qualquer menção de desculpa pela demora. Não que uma
desculpa faria o tempo ser reduzido, mas educação não paga o pão, mas ao menos alimenta
a satisfação. E ainda é de graça!
33 graus aponta o termômetro do lado de fora. Dentro,
agradáveis e refrescantes 21.
Volto para justamente de onde eu saí. Saio do shopping
Eldorado e parto novamente rumo à zona norte. Novamente, por um caminho pouco
ortodoxo. Vou por dentro das mansões dos Jardins.
O casal está a minha espera. Ele está com cara de poucos
amigos. Ela, com uma cara simpática. O calor é republicano. Melhor oferecer
água fresca, coca, coca zero, bala, chocolate Lindt... Não aceitam nada. Parto
rumo aos Jardins.
Ela fala algo que é impossível de eu ouvir. A resposta é
seca e grossa.
Cala a bola! Só fala comigo depois que a gente chegar!
Não sei até onde aquilo era sério. É impressionante como não há uma lógica nos relacionamentos. Se houvesse, claro que já teriam colocado à venda em formato de pílula, gotas e adesivos.
Há casais que estão juntos anos com ele (ou ela) é o mais
ciumento e paranoico do mundo. Outros em que ambos têm TOC (e cada um à sua maneira!). Há
ainda um outro que vive se chamando de “benzinho”, “amorzinho”, “mãe e pai”... Como eu poderia julgar e saber se aquele tipo de reação era uma brincadeira,
uma forma de amor ou mais uma grosseria que ela suportava?
No primeiro momento eu queria mesmo era falar para ele para
que se retirasse do carro. Não conseguia entender como poderia falar daquela
forma com uma mulher.
Mas eu sou apenas um motorista. Motorista particular de
aluguel. Se ela não reagiu, não respondeu e não chorou, então, deixa eu voltar
a ser apenas um objeto entre o banco e o volante.
Segundos depois, ao entrar na avenida Europa, ela começa a
rir sozinha.
Do que você está rindo?!
Silêncio.
Do que você está rindo?!!! O que tem de tão engraçado?
Ué, você não mandou eu calar a boca. Então, não tenho que falar
nada!
Silêncio dobrado.
Hora de eu engolir o "chupa" e fazer cara de paisagem. E torcer para a viagem acabar
logo.
Ao chegar ao hotel, ambos agradecem. Ela sai antes e com
pernadas longas. Ele saiu miúdo, passadas curtas e olhando para ela se apagar
no escuro do saguão.
O radar toca. Uma nova corrida! Acho que o dia ficou um pouco mais empolgante.
CURTA
Você é black? Mas o seu carro é prata. E o banco não é de couro.
Isso mesmo.
Mas eu, como consumidor, tenho o direito de exigir.
O rapaz com menos de 30 anos é calado pelos três outros amigos. Cara, não enche! Você está zoando, né? Ele tem coca, coca zero, Halls, Lindt?
Ah, tem coca zero?
Tenho.
Então agora tudo bem. Até esqueci da falta de couro. Vou te dar cinco estrelas!
Fechado, eu também!
Acredite: essa foi a corrida mais curta até o momento.
CURTA
Você é black? Mas o seu carro é prata. E o banco não é de couro.
Isso mesmo.
Mas eu, como consumidor, tenho o direito de exigir.
O rapaz com menos de 30 anos é calado pelos três outros amigos. Cara, não enche! Você está zoando, né? Ele tem coca, coca zero, Halls, Lindt?
Ah, tem coca zero?
Tenho.
Então agora tudo bem. Até esqueci da falta de couro. Vou te dar cinco estrelas!
Fechado, eu também!
Acredite: essa foi a corrida mais curta até o momento.